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QUEM MANDA EM CASA? O DESAFIO DE EDUCAR HOJE

Está longe o tempo em que os pais decidiam tudo o que os filhos iam comer, comprar, consumir. Não só isso mudou como também os valores tidos e assumidos como referência de vida para as novas gerações.  A família era o núcleo de decisão onde se aprendia a diferença clara entre o certo e o errado. Se isso veio marcado por muito autoritarismo, bloqueando, muitas vezes a construção da autonomia, por outro lado também era uma forma de assegurar as escolhas e decisões num rumo tranqüilizador.

Por que é tão difícil exercer a autoridade e o controle dentro do lar?  Todos dizem que as crianças estão nascendo cada vez mais “espertas”. Será apenas isso?

            Segundo alguns analistas do comportamento humano, isto não é acaso, mas consequência de um sistema que domina e subjuga subliminarmente através da publicidade dos meios de comunicação: filmes, novelas, comerciais, tudo tem uma mensagem subliminar, novas formas de ser e conviver. São oferecidos bens necessários e bens supérfluos. Fazem o supérfluo tornar-se indispensável. Como discernir o que é necessário do que é supérfluo? E mais: o que vem embutido na propaganda  de forma a acharmos que não podemos viver sem aquele produto?

            Os profissionais do marketing buscam fundamentação para a elaboração da propaganda nos especialistas no conhecimento do ser humano e suas necessidades.  Eles sabem que uma das necessidades fundamentais é a de reconhecimento.  E como se dá esse reconhecimento? Basicamente naquilo que a pessoa TEM ou veste. É o carro do ano, o celular, o tênis de marca,.... Com as crianças é através dos brinquedos, das roupas e objetos utilizados por um “ídolo” infantil, do elogio dos adultos ao “vestido bonito”, da inveja dos coleguinhas  diante de alguns objetos que o outro tem e que também quer ter.

Todos precisam ser reconhecidos, vistos e valorizados. Se isto se dá por aquilo que a pessoa é, independentemente do que tem ou veste, a auto-estima da pessoa se constrói e evolui diante do reconhecimento das qualidades pessoais e a tendência é esforçar-se para desenvolver cada vez mais essas qualidades. Se o reconhecimento se dá pelas coisas que a pessoa possui, para continuar tendo a admiração dos outros, a tendência da pessoa é continuar a buscar cada vez mais coisas, entrando num consumismo desenfreado na ânsia de ter para receber a admiração e, muitas  vezes,  a amizade e estima dos outros.

A mídia é responsável por um imenso volume de trocas simbólicas.  Na compra de determinados bens, não são exatamente os objetos que importam, mas a impressão que eles produzem. Pensamos que o objeto nos dá algo que precisamos, não no nível da posse, mas no da identidade. Os objetos de consumo carregam em si qualidades de coisas humanas, valores, sentimentos ou desejos. A sociedade hoje está pautada pelas imagens de sucesso individual, de culto narcísico do corpo, de ilusão de felicidade dada pelo consumo. As mensagens publicitárias comunicam como se pode ter felicidade, ser admirado. Apresentam o bem viver através do consumo. Utilizam estratégias emocionais que invadem a pessoa e a subvertem e, sem dar-se conta, acaba assumindo novos modos de ser, conviver, comer, vestir, divertir-se, gastar o tempo, incorporando novos valores. 

A sociedade que dá adeus aos velhos valores acaba assumindo outros, onde a prevalência do “eu” é a regra. Cada um decide o que é bom ou mau, o que dá prazer ou não e descarta tudo o que não preenche os desejos e vontades pessoais. As coisas passam a ter mais valor que as pessoas. As coisas são amadas e desejadas e as pessoas são usadas, numa inversão total de valores. Não tem mais espaço para a doação e o sacrifício em prol do bem do outro. O outro? “Que se vire!” “Importa o que me satisfaz.”  Qual a consequência essa forma de pensar? Relações descartáveis, superficialidade e vazio. Se cada um é referência de si mesmo, tudo vale, só o “eu” importa, então, sem uma autoridade que orienta e conduz, a sociedade se desintegra.

Há muitas estratégias que contribuem para desfazer toda a orientação que tenta ser dada pelos pais. Uma delas é empoderar a criança. Há filmes e propagandas em que os adultos, especialmente os pais, aparecem como esquecidos, ignorantes e indecisos. Prestemos atenção no que acontece no filme “Esqueceram de mim”. Apresentam a criança como mais esperta, ela é quem decide o que os pais devem fazer. Qual a consequência disso para o imaginário infantil? Os pais assim vistos continuam sendo referência e autoridade? Claro que não!  Assim a estratégia para dominar é dar  uma autonomia que a criança ainda não tem condições de exercer. Quando a criança ainda está na fase da heteronomia, isto é, precisa do adulto para elaborar as regras de convivência e para o discernimento entre o bem e o mal, e esse adulto é descartado, colocado como quem “não sabe”, o sistema entra e induz a assumir os valores do mercado. Empoderando as crianças é muito fácil dominá-las e submetê-las aos valores do mercado consumista, hedonista e selvagem. Há uma inversão de papéis. A criança comanda a vida dos pais. Dizem que passamos do “patriarcado” para o “filhiarcado”. Que sociedade se constrói quando não existe mais a autoridade orientadora dos adultos?

Pesquisas estão demonstrando que a felicidade está declinando. Por quê? Pela correria dos dias atuais, especialmente a corrida para o TER. Nunca  temos o suficiente, tudo que adquirimos se torna ultrapassado e então vivemos em função de trabalhar, comprar, trabalhar, comprar e o tempo para coisas essenciais fica em segundo plano, e assim nossa vida vai ficando triste e vazia. Há um sistema que nos indica caminhos: “Está estressado? Vá ao shopping, use seu “cartão...” É uma sociedade que valoriza as aparências. SOU alguém se TENHO aquele carro, aquela roupa de grife, aquele celular.... A ambição de possuir subverte a possibilidade de conviver e repartir, servir e doar, tarefa que dignifica a vida e lhe dá pleno sentido. Essa ambição gera, também, insensibilidade diante do mundo que está ao nosso redor, aumentando as desigualdades, bem como o esgotamento dos recursos naturais.

Segundo Jung o consumo alimenta nossos apetites insatisfeitos, nutre o fato de que não fomos alimentados espiritualmente e que há um vazio em nós que não pode ser preenchido com bens. O vazio em nós aumenta quando nos afastamos de nós mesmos, da nossa condição humana e espiritual.

A sociedade atual tenta preencher o vazio do coração e a insatisfação pessoal pela ausência de ideais com a ilusão do consumo, voltado para o ter, o poder e o prazer na ilusão de SER. Com isso gera-se cada vez mais individualismo e isolamento. As energias e recursos são canalizados para o consumo da indústria de supérfluos, não havendo espaço e tempo para o ser e o conviver. Se somos seres, essencialmente, de convivência e só através dela sabemos quem somos  e assim nos realizamos,  explica-se o porquê do teor explosivo das relações interpessoais e o aumento da solidão e todos os males que ela acarreta. Se tudo isso afeta aos adultos, muito mais às crianças, submetidas  a esse imaginário poderoso e foco principal do sistema, pois as crianças induzem os pais ao consumo, conforme estudos e pesquisas.   A publicidade dirigida ao público infantil triplicou nos últimos tempos.

Diante disso, o que fazer? Tem como reverter esse processo? Temos que crer que sim, pois o contrário geraria um sentimento de impotência que seria fatal para a constituição de famílias fortes e felizes e base para uma sociedade verdadeiramente humana. 

PRIMEIRO: ter bem claros quais os valores que consideramos como essenciais para nossa vida de família e de seres no mundo. Sabemos nomear quais são esses valores? Mostramos com atitudes que esses valores fazem parte do nosso modo de agir? Espelhamos isso claramente para nossos filhos? Como são cultivados e vividos os valores religiosos? (não estaríamos também nos deixando submeter pelo sistema? Muitos dizem que estamos vivendo a era da insensatez).

SEGUNDO: fortalecer sempre a auto-estima da criança,  elogiando e enaltecendo qualidades pessoais e não  uma roupa ou coisa que ela possua. Importante é a bondade, o sorriso, o abraço, a ternura, a doação, tudo que vem do coração e que pode crescer quando reconhecido e elogiado. Que ela se sinta “acreditada” por aquilo que é. Assim a necessidade de “reconhecimento” que o sistema atual tenta impor pelos objetos de consumo muda de foco. Uma criança que se sente amada e aceita por aquilo que é não vai precisar de coisas para ser reconhecida como alguém especial, valorizada e amada.

TERCEIRO: fazer sentir que amamos nossos filhos de forma incondicional, do jeito que eles são e que errar faz parte da vida. Ao corrigir um erro, deixar bem clara a diferença entre criticar o erro e amar a pessoa. Não abrir mão da autoridade serena e segura e ser capaz de dizer não quando é não. Junto com isso olhar nos olhos dos nossos filhos e questionar sobre as atitudes que não aprovamos. Ao invés de apenas apontar o erro, perguntar: “o que você acha disso?” Ajudar a criança a se colocar no lugar do outro e da situação em questão.

QUARTO: priorizar a qualidade do tempo com os filhos e família. Controlar os programas de televisão que podem ou não assistir.  A televisão não precisa estar ligada o tempo todo como se vê em algumas famílias. Reservar tempo para brincar, passear, contar casos, histórias ou fatos reais. Isso fortalece as relações e o vínculo familiar, fazendo com que o lar seja um lugar onde gostamos de estar e percebemos que as melhores coisas do mundo, a alegria e o prazer dessa convivência jamais poderão ser substituídas por coisas que o dinheiro pode comprar.  Tudo isso funciona como um reservatório de valores que, diante de uma insegurança ou conflito ético, entra em ação ajudando a discernir o certo e o bom do errado e mau.

QUINTO: penso que é fundamental os pais procurarem conhecer cada vez mais as questões referentes à educação e entendimento do mundo atual. Cada vez que um grupo se reúne e troca idéias sobre questões comuns sobre a vida em família e educação dos filhos, construção da felicidade, mais segurança e firmeza terá para resolver os problemas e conflitos do dia a dia. A participação numa comunidade igreja, cursos e palestras oferecidos, grupos de convivência fraterna, tudo isso  é fonte de conhecimento e segurança diante da difícil tarefa de conduzir os filhos e formá-los para serem pessoas e cidadãos realizados, num mundo de tantas futilidades e vazio. Muito sofrimento acontece na criação dos filhos quando os pais deixam de ser a orientação firme e segura e se submetem aos filhos pela pressão que nem as crianças e adolescentes compreendem. Os filhos precisam se espelhar nos pais e os pais precisam se espelhar num Maior, que é Deus, fonte de sabedoria, graça, luz, força e entendimento.

Com isso podemos ficar mais serenos diante das imposições que vêm de fora, pois os exemplos e a vivência no lar ainda são e sempre serão os alicerces de uma vida segura e feliz. Um fruto nunca cai longe da árvore. Isto significa que aquilo que fazemos e vivemos serão as referências para nossos filhos e, cedo ou tarde, também as assumirão.

 

Geni M. Onzi Isoppo. Professora e pedagoga - geniisop@terra.com.br

 

 

 

 

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